
Tem uma ideia que a gente carrega desde cedo: que existe uma ordem certa das coisas. Estudar, estabilizar a carreira, casar, ter filhos, tudo dentro de uma janela de tempo que parece ter sido combinada em algum lugar sem a nossa participação. E quando a vida foge desse roteiro, a sensação costuma ser de atraso, de estar fazendo errado.
Chegou chegando
Tali e a esposa, Valentina, receberam uma ligação num dia 14 de outubro. Oito dias depois, o filho Léo já tinha chegado. Não houve meses de preparação, enxoval pronto, quarto decorado. “A gente não tinha nada, nenhuma chupeta, nenhuma mamadeira”, conta Tali. Arrumaram as malas, viajaram para buscá-lo e começaram a ser mães ali, sem roteiro, com o que ela descreve como “muito desejo de sermos mães”.
É uma imagem que contraria bastante coisa que a gente aprende sobre maternidade: que precisa vir num momento certo, planejado, com todas as peças no lugar antes de começar. Pra Tali e Valentina, a maternidade começou como a vida real costuma começar as coisas importantes, no meio da correria, sem aviso, e funcionou.
Parceria como base
Um dos pontos que Tali destaca sobre a rotina com Valentina não é sobre romance, é sobre amizade. “A gente se divide como qualquer família tradicional, cada um faz uma coisa, mas a gente tem uma afinidade muito grande, a gente se entende bastante”, ela conta. E completa: “Nós sempre fomos assim como um casal. O casamento entre duas mulheres também tem isso de sermos melhores amigas em todos os sentidos.”
Não tem aqui uma fórmula mágica de conjugalidade, e a gente não vai tratar como se fosse. O que fica é um lembrete simples: parceria se constrói na prática, na divisão real do dia a dia, não em um papel que alguém preenche porque “é assim que se faz”.
Muitas formas de pertencer
A história de Tali chega até a gente junto de uma mensagem que ela publicou no Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+: “Existem muitas formas de construir uma família. Muitas formas de amar. Muitas formas de pertencer.”
É basicamente o resumo de tudo. Família por adoção, família com duas mães, família que começou com uma ligação inesperada em vez de nove meses de gestação, tudo isso é família, sem hierarquia de legitimidade entre um formato e outro.
Pra quem está na faixa dos 35+ e sente que ficou pra trás em algum cronograma que nunca escolheu, essa história devolve uma pergunta melhor: em vez de “estou atrasada?”, talvez seja “esse é o meu caminho, e ele não precisa se parecer com o de mais ninguém?”
Não existe um jeito certo de chegar lá
Roteiro é útil pra filme. Pra vida, raramente sobra assim tão arrumado. Tali e Valentina mostram que dá pra construir família, parceria e propósito fora da ordem esperada, e que o resultado não é uma versão menor de nada. É só outro caminho, com a mesma força.
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