
Teve um período em que ela se pegava se perguntando: quem eu sou agora? Pra onde eu fui? A filha tinha poucos meses de vida, e ali, no meio da rotina de recém nascida, uma pergunta que não parava de voltar: será que ainda cabe, em mim, tudo que eu queria antes de ser mãe?
Foi por causa dessa pergunta que ela procurou análise. E a primeira frase que disse, sentada no consultório, resume bem o incômodo: “agora eu sou mãe, mas o problema é que eu ainda tenho outros sonhos, outros desejos”.
A resposta que ouviu foi direta: que a maternidade não precisa significar o fim de quem ela era. Que os sonhos e desejos que existiam antes da filha continuam tendo espaço para existir depois dela. Que uma criança sente quando a mãe está realizada, quando ela também vive coisas que gosta de viver, fora do papel de mãe.
Foi aí que ela percebeu algo: tinha uma ideia idealizada do que era ser mãe, como se a maternidade sozinha devesse dar conta de toda a felicidade. E não sabia bem de onde tinha vindo essa ideia. Não foi da própria mãe, que sempre trabalhou fora. Talvez tenha sido dos filmes.
Essa pergunta, quem eu sou além de mãe, não tem uma resposta pronta. Mas nomear ela já é um movimento importante. A gente pode ser mãe e, ao mesmo tempo, seguir sendo alguém com vontades, projetos e sonhos que não têm nada a ver com maternidade. Uma coisa não anula a outra.

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